sábado, 7 de maio de 2011

Meio a meio.

Estava cheio de mim. Era muito 'eu' para uma pessoa só. Fazia questão de me guardar e ficar comigo só para mim. Foi então que você apareceu. O 'eu' foi dividido em 'nós'. Mas você me queria por inteiro, queria que 'eu' fosse 'seu'. Meio 'eu' não lhe bastou. E assim, como num piscar de olhos, metade de mim foi para o lixo; e você, por completo, para um outro 'eu'.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Ciúme.

Acariciei-te, te abracei, te beijei, te mordi, te arranhei. Abraçou-me, me beijou, me mordeu, me arranhou. Beijou-te, te mordeu, te arranhou. Mordi e te arranhei, filho da puta!

domingo, 27 de março de 2011

Olha-me!

Seu olhar me frustra. Inibe-me. Deixa-me sem ar - por mais clichê que isso soe. Seu olhar, ao se encontrar com o meu, me deixa perdido. Fico sem rumo, sem razão de ir e vir. Talvez eu não me permita entender o que seu olhar quer me mostrar. Sei que tem algo pairando no ar. Mas, o que? Prefiro não saber. Prefiro continuar nesse mistério no qual eu mesmo faço questão de me afundar. Só digo uma coisa: continue me olhando. Continue me deixando nesse estado de dúvida, de angústia, de medo... e de paixão.

domingo, 20 de março de 2011

O que é beleza para você?

E entramos mais uma vez na velha questão: o que é considerado bonito, e o que é considerado feio?

Beleza para mim é um olhar intenso, regado à paixão e devaneios. Beleza é um jantar à luz de velas, com carícias suaves e, por vezes, sacanas. Beleza é ver você se encostando em meu peito com um ar de necessidade.

Há quem diga que beleza é olho azul num rosto sem espinhas, mas com muita mediocridade. Ou barriga tanquinho num corpo sem alma. Mas nada é mais medíocre e sem alma que o preconceito lançado a olhos nus sobre um corpo, por ora imperfeito, mas repleto de alma boa, pura e meticulosamente aperfeiçoada por seres divinos.

terça-feira, 1 de março de 2011

Ética

Pego o lápis. Escrevo meia dúzia de palavras mortas sobre a folha de papel. O que deveria ser um calmante, torna-se tortura. Minha mão treme a cada rabiscada. Todos os sentimentos concentram-se nas pontas dos meus dedos. O que devo escrever? Levanto-me decepcionado. Vou ao computador. Encontro um texto bem escrito e conciso, feito por outra pessoa. Aperto Ctrl C e Ctrl V. Colo na minha página da web e digo que o texto é meu. Minha carreira como escritor começa a deslanchar.

Enquanto isso, na sala de aula...

"Talvez não seja suficiente. Talvez seja um delírio. Talvez seja efêmero. Quantos 'talvez' terão de ser banidos para que eu, enfim, chegue a você?"

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Dois minutos de eternidade.

Dei um trago. Folheei o livro. Outro trago. O cigarro já não mais aguenta o vai e vem da minha boca ao cinzeiro. Faltam dois minutos para meia-noite. O isqueiro já começa a falhar depois dos quarenta e tantos cigarros fumados nessa noite. Um gole no conhaque mais vagabundo que eu já tomei. O sono se dispersa por dentro das letrinhas miúdas que cobrem as páginas amareladas deste velho livro. Um minuto para meia-noite. Em sessenta segundos eu devo pensar em tudo o que eu mais desejo para o ano que se desabrocharia. Cinquenta e dois segundos. Escuto gente gritando. Gente alcoolizada pela energia positiva que os toma no final do ano. O mendigo maltrapilho que tanto sofria, agora ri na esquina. Seu riso desconcertante me enlouquece. Quarenta e três segundos. Os fogos de artifício já dão início a um novo ano, no qual as pessoas acreditam que tudo será diferente. Que tudo será melhor. Bobagem! A puta da Rua Augusta que hoje chora emocionada pela esperança de um futuro melhor continuará dando para velhos barrigudos em busca de prazer carnal por quinze minutos. Trinta e um segundos. O velho tuberculoso que agora reza o terço inteiro pedindo a Deus pela sua saúde continuará enfrentando filas quilométricas para ser atendido no posto de saúde. Ouço famílias cantando a canção que inaugurará a felicidade - depois de um ano tendo migalhas de pão na mesa. Vinte segundos. Os rojões riem na cara da hipocrisia do final do ano. As crianças que agora pulam as sete ondinhas no mar mal sabem que tentarão pular os muros da cadeia daqui a nove ou dez anos. Onze segundos. Tudo continuará uma merda. Não prometi parar de fumar. Muito menos parar de beber. Sete segundos. Agonia. Frustração. O suor corre pelas minhas mãos. Três segundos. A morte é a única coisa que me passa pela cabeça. Dois segundos. Gritaria. Euforia. Um último trago no cigarro. Um segundo. Talvez o mais longo de minha vida. É ano novo! E agora, o que farei? Comemoro? Choro? Peço por um futuro melhor? Ao inferno o futuro! Não tive passado. Não tenho presente. Por que esperar algo do futuro? Meu cigarro continuará queimando. Meu conhaque continuará descendo pela minha garganta. As letrinhas do velho livro amarelado continuarão fixadas na minha retina. Minha vida não será como um ano que se desabrocha e passa pela eloquente esperança de melhora, até que o último rojão cesse a algazarra e a noite morra no tédio.