segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Dois minutos de eternidade.

Dei um trago. Folheei o livro. Outro trago. O cigarro já não mais aguenta o vai e vem da minha boca ao cinzeiro. Faltam dois minutos para meia-noite. O isqueiro já começa a falhar depois dos quarenta e tantos cigarros fumados nessa noite. Um gole no conhaque mais vagabundo que eu já tomei. O sono se dispersa por dentro das letrinhas miúdas que cobrem as páginas amareladas deste velho livro. Um minuto para meia-noite. Em sessenta segundos eu devo pensar em tudo o que eu mais desejo para o ano que se desabrocharia. Cinquenta e dois segundos. Escuto gente gritando. Gente alcoolizada pela energia positiva que os toma no final do ano. O mendigo maltrapilho que tanto sofria, agora ri na esquina. Seu riso desconcertante me enlouquece. Quarenta e três segundos. Os fogos de artifício já dão início a um novo ano, no qual as pessoas acreditam que tudo será diferente. Que tudo será melhor. Bobagem! A puta da Rua Augusta que hoje chora emocionada pela esperança de um futuro melhor continuará dando para velhos barrigudos em busca de prazer carnal por quinze minutos. Trinta e um segundos. O velho tuberculoso que agora reza o terço inteiro pedindo a Deus pela sua saúde continuará enfrentando filas quilométricas para ser atendido no posto de saúde. Ouço famílias cantando a canção que inaugurará a felicidade - depois de um ano tendo migalhas de pão na mesa. Vinte segundos. Os rojões riem na cara da hipocrisia do final do ano. As crianças que agora pulam as sete ondinhas no mar mal sabem que tentarão pular os muros da cadeia daqui a nove ou dez anos. Onze segundos. Tudo continuará uma merda. Não prometi parar de fumar. Muito menos parar de beber. Sete segundos. Agonia. Frustração. O suor corre pelas minhas mãos. Três segundos. A morte é a única coisa que me passa pela cabeça. Dois segundos. Gritaria. Euforia. Um último trago no cigarro. Um segundo. Talvez o mais longo de minha vida. É ano novo! E agora, o que farei? Comemoro? Choro? Peço por um futuro melhor? Ao inferno o futuro! Não tive passado. Não tenho presente. Por que esperar algo do futuro? Meu cigarro continuará queimando. Meu conhaque continuará descendo pela minha garganta. As letrinhas do velho livro amarelado continuarão fixadas na minha retina. Minha vida não será como um ano que se desabrocha e passa pela eloquente esperança de melhora, até que o último rojão cesse a algazarra e a noite morra no tédio.

Um comentário:

  1. Ok, eu sei que esse texto eu já postei nos outros blogs e até no Facebook. Mas é que são 4h da manhã e estou sem paciência para redigir um novo texto. :)

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